Dossiê · Caso 06 · Banco Master
Do rombo bilionário do Banco Master aos voos pagos a Nikolas Ferreira em 2022, até o áudio em que o deputado pede desculpas ao banqueiro e um favor de US$ 45 milhões para um "irmão" que, meses depois, aparece numa operação sobre mineração ilegal. Tudo em ordem cronológica, com o que cada lado responde.
↓ rolar para o dossiê
O caso em três núcleos
O caso Banco Master começa como uma investigação financeira e chega ao deputado por duas portas: os voos de campanha e um negócio de mineração em Minas Gerais. As articulações do banqueiro nos bastidores aparecem na linha do tempo apenas como pano de fundo.
Linha do tempo · 2022 a 2026
Filtre por núcleo para acompanhar uma trama de cada vez. Os pontos em vermelho marcam prisões e decisões de regime. Os eventos marcados como "Bastidores" são as articulações do banqueiro fora do caso Nikolas, incluídos só para situar as datas.
O áudio · 30/03/2025
Transcrição literal do áudio enviado por Nikolas Ferreira a Daniel Vorcaro. Os trechos em verde tratam do negócio; os em laranja, do pedido de desculpas.
"Amém irmão. Estamos na guerra juntos. (…) Deixa comigo."Resposta de Daniel Vorcaro ao áudio
O deputado abre porta para o advogado que buscava a liberação de um ativo minerário "pendente" dentro da instituição financeira. Diz que "pode dar um toque" no banqueiro e oferece o contato para "tocarem isso".
O deputado justifica a postagem crítica ao fórum de Londres: diz ao pastor André Valadão que não sabia que o banco era de Vorcaro e que, se soubesse, "não teria postado, teria conversado anteriormente".
Núcleo econômico
O "toque" pedido no áudio tinha objeto, beneficiário e preço. O caminho do pedido, em três pontas:
Operação Rejeito (setembro/2025) — Seis meses depois do áudio, o nome de Thiago Faria é citado na operação da PF sobre fraudes em licenciamentos ambientais e lavagem de dinheiro na extração ilegal de minério em Minas Gerais.
Faria confirma a posse do ativo, afirma tê-lo oferecido ao mercado de forma lícita por ser de Belo Horizonte, mesma cidade de Vorcaro, e ressalta que nunca foi indiciado nem chamado a depor.
O que está em jogo
A Operação Rejeito investiga fraudes em licenciamentos ambientais e extração ilegal de minério em Minas Gerais. Licença ambiental não é carimbo: é a etapa em que se verifica a estabilidade de barragens e encostas, o destino do rejeito, a contaminação da água e o plano de emergência para quem mora abaixo da mina. Quando ela é fraudada, tudo isso deixa de ser checado.
Rompimento da barragem de Fundão (Samarco, Vale e BHP), minério de ferro. O distrito de Bento Rodrigues foi soterrado e a lama percorreu mais de 600 km pelo Rio Doce até o mar, no Espírito Santo. Maior desastre ambiental da história do país.
Rompimento da barragem B1 da mina Córrego do Feijão (Vale), minério de ferro. A lama atingiu o refeitório da empresa na hora do almoço e a comunidade abaixo. Maior acidente de trabalho da história do Brasil. A barragem tinha laudo de estabilidade assinado.
O que isso tem a ver com o áudio: nenhum desses desastres tem relação direta com o ativo da Mineração Topázio Imperial. O ponto é outro. Quando um deputado usa a relação com um banqueiro para "destravar" um ativo minerário, e o beneficiário aparece depois numa operação sobre licenciamento fraudado, o que está sendo empurrado não é só um negócio de US$ 45 milhões. É a remoção da única barreira que separa uma mina do próximo Brumadinho.
Fatos e respostas
Cada fato com a resposta pública de quem é citado.
| Fato | O que apontam as investigações | Resposta |
|---|---|---|
| Voos de 2022 | Mensagem de Vorcaro a sócio (abril/2024): "Esse Nikolas eu banquei todos os voos dele". | Nikolas FerreiraUsou a aeronave sem saber que pertencia ao banqueiro. |
| Áudios de 30/03/2025 | Pedido de desculpas pelo vídeo do fórum de Londres, pedido de aproximação e intermediação do ativo minerário. | Nikolas FerreiraConfirmou os áudios. Alega que não apagou a postagem crítica original, o que provaria não haver acordo escuso. |
| Ativo minerário | Escritório de Thiago Faria tinha contrato com a Gmais Ambiental e receberia comissões se o ativo fosse liberado. Nome citado na Operação Rejeito. | Thiago FariaConfirma a posse do ativo, oferecido ao mercado de forma lícita. Nunca foi indiciado nem chamado a depor. |
Conclusão técnica
A cronologia, lida na ordem, expõe três movimentos que não se sustentam juntos.
Em março de 2025 o deputado ataca o fórum de Londres por ser patrocinado pelo Master. Dias depois, num domingo, grava áudio dizendo que "não teria postado" se soubesse de quem era o banco. A crítica pública tinha como alvo exatamente o que ele pede desculpas por ter criticado.
O recuo não vem sozinho. Na mesma mensagem, o parlamentar oferece o contato de um "irmão" para destravar um ativo de até US$ 45 milhões dentro da empresa do banqueiro. O banqueiro responde "deixa comigo". Seis meses depois, o beneficiário é citado numa operação da PF sobre mineração ilegal.
No áudio, o deputado diz duas coisas em 20 segundos: que "não sabe nem do que se trata" e que o beneficiário é alguém em quem "confia totalmente". Ele avaliza o pedido sem conhecer o objeto. Seis meses depois, esse beneficiário é citado numa operação sobre licenciamento ambiental fraudado e mineração ilegal, o tipo de fraude que antecede os desastres da seção anterior.
O que ainda está em aberto: se o ativo da Mineração Topázio Imperial chegou a ser liberado após o "deixa comigo", quanto o escritório de Thiago Faria receberia de comissão, e o que mais as 218 páginas da perícia no celular de Vorcaro dizem sobre o deputado.